Como vimos na análise do Boletim Focus, a manutenção da Selic em patamares elevados impacta diretamente a precificação dos ativos de crédito — e, por consequência, muda a lógica de alocação entre os diferentes tipos de Fiagro.
Com a Selic projetada para encerrar o ano ainda em níveis altos (algo como 12,25%–12,50%), o investidor de Fiagro entra em uma encruzilhada que é menos “qual rende mais agora?” e mais “qual risco eu aceito carregar no ciclo de 2026?”.
A diferença fundamental:
- Fiagros de Crédito (Papel) tendem a “surfar” juros altos via CRAs (e outros instrumentos de crédito), normalmente com remuneração CDI + spread.
- Fiagros de Terra (Tijolo) buscam ganho patrimonial (valorização do hectare) e renda imobiliária (arrendamento/parcerias), com outra dinâmica de risco e liquidez.
A tese central: em 2026, a escolha não é sobre “qual é o melhor”, mas sobre qual risco o investidor deseja: risco de crédito e marcação a mercado (papel) versus risco de liquidez, execução e fatores locais/climáticos (terra).
2) Fiagros de Crédito (Papel): o yield como protagonista
Como funcionam agora
A maior parte dos Fiagros de papel carrega carteiras de CRAs (e estruturas correlatas) indexadas ao CDI, geralmente com spread adicional. Em um ambiente de juros resilientes, o dividend yield tende a permanecer como o principal atrativo: a renda acompanha, com alguma defasagem e fricções, o nível alto do custo do dinheiro.
Na prática, observa-se que:
- CDI elevado → cupons maiores → potencial de distribuição mais robusta;
- o investidor costuma enxergar o fundo como “renda mensal”, mas isso é apenas parte da fotografia.
O ponto de atenção: risco de crédito
Juros altos por mais tempo pressionam a capacidade de pagamento do tomador — normalmente produtor, cooperativa, trading ou empresa ligada ao agro. Mesmo operações bem estruturadas podem sofrer com:
- aumento de custo financeiro,
- margens apertadas por queda de commodity,
- eventos climáticos,
- atrasos operacionais (logística, armazenagem, comercialização).
Aqui, o investidor profissional sai do “yield” e vai para a pergunta correta: qual é a qualidade do crédito e das garantias?
Autoridade técnica: LTV (Loan-to-Value) e garantias reais
O LTV é uma métrica-chave para avaliar o “colchão” de segurança da operação: quanto da dívida está coberta por garantias.
- LTV baixo (em tese) sugere mais proteção, pois há mais valor de garantia em relação ao saldo devedor.
- LTV alto indica menor margem de segurança e maior sensibilidade a estresses (queda de preço de ativos/commodities, reprecificação, execução judicial).
Mas atenção: não basta “ter garantia”. O que importa é qual garantia, onde, como é executável, e como ela se comporta em estresse.
3) Fiagros de Terra (Tijolo): a resiliência patrimonial
A lógica do ativo
Fiagros de terra investem em propriedades rurais, buscando:
- arrendamento (renda recorrente),
- valorização do hectare (ganho de capital),
- em alguns casos, estratégias como sale & leaseback, melhorias produtivas e reciclagem de portfólio.
O atrativo em 2026: “hedge” patrimonial de longo prazo
No Brasil, a terra agrícola tem histórico de valorização real em diversos ciclos (embora com dispersão grande por região, qualidade do solo, logística e perfil produtivo). Em termos de estratégia, a terra tende a funcionar como um hedge mais estrutural contra perda do poder de compra — especialmente quando:
- há demanda por produção,
- há receita do agro com alguma correlação com câmbio/commodities,
- há escassez relativa de ativos reais “bons” e produtivos.
O desafio do yield
O “trade-off” clássico: em muitos Fiagros de terra, o dividendo mensal pode ser menor do que nos fundos de papel, porque a tese inclui:
- retorno total (renda + valorização),
- reavaliação periódica de ativos,
- ganhos em eventual venda (que dependem de janela de mercado e liquidez).
Ou seja: o investidor que entra esperando “apenas renda” pode se frustrar — mas o investidor que olha patrimônio + horizonte pode ver sentido estratégico.

4) Análise comparativa: qual tese faz sentido para 2026?
| Característica | Fiagro de Crédito (Papel) | Fiagro de Terra (Tijolo) |
| Principal driver | Taxa Selic / CDI | Valorização do hectare / arrendamento |
| Perfil de renda | Alta e imediata (pós-fixada) | Moderada (indexada ao grão/IPCA/contratos) |
| Risco principal | Inadimplência (default) e estrutura da garantia | Liquidez, risco de execução/gestão e risco climático local |
| Horizonte | Curto / médio prazo | Médio / longo prazo |
Leitura profissional: em 2026, o debate não é “papel versus tijolo”, mas sensibilidade ao ciclo. Papel tende a reagir mais rápido ao juro (e à marcação a mercado). Terra tende a “carregar” mais um componente estrutural de ativo real — com liquidez e avaliação mais complexas.
5) Variáveis de decisão para o início do ano (as perguntas certas)
Em vez de “compre X ou Y”, a alocação estratégica sugere começar pelas perguntas:
5.1) Previsibilidade de caixa
Você precisa de renda imediata (para despesas, reinvestimento mensal, previsibilidade)?
- Observa-se que, nesse perfil, Fiagro de crédito tende a ser mais eficiente no curto prazo, pois o fluxo acompanha o CDI.
5.2) Proteção patrimonial
O objetivo é preservação de patrimônio, sucessão, proteção contra ciclos longos e contra desvalia inflacionária?
- Nesse caso, Fiagro de terra oferece lastro real (imóvel rural) e uma dinâmica menos dependente do “cupom do mês”.
5.3) Exposição geográfica e diversificação
Como o fundo está exposto por região? A diversificação entre estados e fronteiras agrícolas reduz riscos idiossincráticos:
- MT (Mato Grosso): escala e produtividade, mas exige leitura de logística e perfil de safra.
- PR (Paraná): tradição, base industrial/agro mais integrada em certas regiões.
- MATOPIBA (MA, TO, PI, BA): potencial, mas com heterogeneidade grande de qualidade e riscos locais.
Em termos de governança de risco, concentração geográfica é um “detalhe” que vira “evento” em caso de estresse climático regional.
6) Três elementos que separam “bom fundo” de “armadilha de yield” (visão 2026)
6.1) Duration e marcação a mercado (mark-to-market)
Muitos iniciantes tratam Fiagro de papel como se fosse um título que “não oscila”. Só que o preço da cota reflete também marcação a mercado dos ativos (principalmente quando há negociação/reprecificação, mudança de prêmio, abertura de spreads ou alteração de expectativa de juros).
O conceito de duration ajuda a medir sensibilidade a taxa:
- carteiras com maior duration (prazos mais longos, maior sensibilidade) podem sofrer mais quando as taxas sobem;
- por outro lado, se houver queda de Selic mais adiante (por exemplo, no fim de 2026), os fundos com maior duration podem capturar ganho de capital na cota — além dos dividendos.
Valor prático: isso muda o “mindset” de pagador de boletos para ativo de oportunidade (renda + potencial de valorização).
6.2) Risco de “concentração de sacos” (LTV físico)
Aqui entra um filtro que investidores profissionais usam para não se enganar com garantias “bonitas” em reais.
Além do LTV em moeda, faz sentido olhar o LTV em sacas de soja (ou outra commodity relacionada à operação):
- se a garantia ou a capacidade de pagamento depende do fluxo de commodity, uma queda forte no preço (ou choque de produtividade) pode deteriorar a cobertura em termos físicos;
- a garantia que parecia confortável em reais pode ficar “curta” quando convertida em sacas (ou quando o custo financeiro sobe e a margem do produtor cai).
- Exemplo: “Se um CRA tem garantia de 100 mil sacas e a soja cai de R$ 130 para R$ 100, o valor real da sua garantia encolheu R$ 3 milhões, mesmo que o papel continue rendendo CDI+3%.”
Na Matriz de Estresse: No impacto da “Alta do Dólar” para Fiagro de Terra, você pode adicionar que isso aumenta a liquidez do arrendatário. Produtor com receita em dólar paga o arrendamento com mais facilidade, diminuindo o risco de vacância financeira do fundo.
Valor prático: o investidor passa a monitorar mercado de commodities como parte do controle de risco da carteira de Fiagros.
6.3) “Quem paga o yield?”: qualidade do risco versus cupom alto
Yield alto, por si só, não é virtude; pode ser prêmio por risco. O investidor mais sofisticado compara:
- spread versus rating de crédito,
- covenants, subordinação, estrutura de garantias,
- histórico do devedor e do setor,
- transparência do gestor na carta/relatório gerencial (principalmente em eventos de estresse).
Em 2026, o cenário favorece o investidor que entende que “taxa boa” sem estrutura boa vira armadilha de yield.
7) Matriz de decisão (cenário de estresse 2026)
| Evento em 2026 | Impacto no Fiagro de Crédito (Papel) | Impacto no Fiagro de Terra (Tijolo) |
| Quebra de safra local | Aumenta o risco de inadimplência (monitorar garantias, covenants, reforços) | Pode afetar o recebimento do arrendamento, mas o ativo tende a ser mais resiliente no longo prazo |
| Alta do dólar | Em geral, efeito indireto (foco no juro real e no risco do devedor) | Muitas vezes positivo: terras produtivas podem se valorizar com receita do agro mais dolarizada |
| Queda brusca da Selic | Dividendos tendem a cair; pode haver ganho na cota (via mark-to-market, especialmente em maior duration) | Yield do arrendamento fica comparativamente mais atrativo; valuation de ativo real pode se beneficiar |
8) O que ler no relatório gerencial (modo investigador)
Para elevar o padrão da análise, procure objetivamente por:
Indexadores
Qual porcentagem está em CDI vs. IPCA? Em 2026, o equilíbrio entre indexadores ajuda a evitar “apostar tudo” em um único regime de juros/inflação.
Vencimento das dívidas (ladder)
Há muitos CRAs vencendo em 2026? Isso pode implicar reinvestimento a taxas potencialmente menores (se o ciclo virar) ou maior risco de rolagem em cenário de crédito apertado.
Concentração
- por devedor,
- por setor/chain (insumos, armazenagem, originação),
- por região.
Concentração é onde o risco “esconde” até aparecer.
Garantias e execução
O relatório descreve claramente: alienação fiduciária, penhor, fiança, seguros, cessão de recebíveis, overcollateral? Há governança e rastreabilidade?
Mark-to-market e critérios de precificação
Transparência sobre critérios de avaliação e eventuais provisões é um diferencial de confiança.
9) O equilíbrio da carteira em 2026
O veredito técnico: o cenário de início de 2026 sugere que a diversificação entre as duas teses tende a ser a rota mais prudente. Fiagro de crédito captura o juro alto do momento, enquanto o Fiagro de terra oferece exposição ao crescimento estrutural do valor do solo brasileiro e ao componente de ativo real.
Fechamento de autoridade:
“No cenário atual, a maturidade do investidor de Fiagro em 2026 é medida pela capacidade de enxergar além do Dividend Yield. Enquanto os fundos de papel oferecem o conforto dos juros de dois dígitos, os fundos de terra oferecem o lastro real que protege o patrimônio contra desvalia inflacionária. A pergunta correta não é qual escolher, mas como calibrar sua exposição: você busca a proteção do imóvel rural ou a rentabilidade do crédito agrícola?”
Por fim, observa-se uma tendência clara: a diferença entre uma boa decisão e uma decisão frágil raramente está no “tipo” (papel ou tijolo), e quase sempre está na qualidade da gestão, na estrutura de risco e na leitura disciplinada de prospecto, fatos relevantes e relatórios gerenciais.
Conteúdo educativo; não constitui recomendação individual. Para decisões, faz sentido considerar objetivos, liquidez, horizonte e tolerância a risco.
Glossário rápido
- CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio): título de crédito lastreado em recebíveis do agro, usado por Fiagros de papel para compor carteira e gerar renda.
- Spread: prêmio acima do indexador (ex.: CDI + 3%) que remunera risco e estrutura.
- LTV (Loan-to-Value): relação entre dívida e valor da garantia. Quanto menor, maior a “folga” (em tese).
- Duration: medida de sensibilidade do preço de um ativo à variação de taxa de juros; maior duration tende a oscilar mais com mudanças de juros.
- Mark-to-market (Marcação a mercado): ajuste do valor dos ativos e da cota ao preço/valor de mercado; pode gerar volatilidade.
- Cap Rate (Taxa de retorno do arrendamento): retorno anual do aluguel/arrendamento em relação ao valor do imóvel (terra).
- Rating de crédito: avaliação (quando existe) do risco de crédito do emissor/operação; não elimina risco, mas ajuda a precificar.

Especialista em gestão de riscos e finanças do agronegócio. Atua na proteção de margem, estruturação financeira e valorização do patrimônio rural. Traduz decisões complexas de 2026 em estratégias práticas para quem vive da terra e investe no campo.





