Atualizado em 19/01/2026 às 09:15
1. O termômetro de Janeiro
O primeiro Boletim Focus “de peso” de 2026 acaba de sair — e ele não entrega apenas uma fotografia de inflação. Ele ajuda a precificar o custo do dinheiro que vai atravessar a safra 2026/27 e, por tabela, a atratividade (ou não) dos ativos de crédito privado ligados ao agro, como CRAs e Fiagros.
A tese central é direta: o consenso de mercado sinaliza a manutenção das taxas em patamares elevados, o que obriga produtor, cooperativa e investidor a recalcularem suas margens de segurança agora — antes de travar insumo, renegociar dívida ou montar estruturas de hedge. Em um ambiente de ancoragem de expectativas ainda sensível, errar na leitura do Focus pode custar mais do que perder alguns sacos por hectare.
2. Selic e o Custo de Capital: Onde o “calo” aperta
O Focus projeta a Selic no fim de 2026 em torno de 12,25% a 12,50%. Quando a taxa básica se mantém em dois dígitos, o impacto no agro não é apenas conceitual — é de caixa. O custo de carregamento (giro e custeio) segue pressionando a operação, seja no sistema tradicional ou via mercado de capitais, onde o spread costuma orbitar o CDI.
Insight prático: Com juros nesse patamar, o lucro não está mais apenas na produtividade, mas na gestão da dívida. É hora de colocar lado a lado o CDI, as taxas de barter e o custo efetivo total do custeio. Em 2026, “fazer conta” volta a ser o maior diferencial competitivo.
3. O Dólar e a Paridade de Exportação
Com projeção cambial orbitando entre R$ 5,50 e R$ 5,70, o dólar do Focus serve como farol, mas o que manda é a volatilidade. Para quem exporta, as janelas de oscilação são mais importantes do que o ponto final em dezembro.
- Estratégia: Se o dólar futuro apresenta prêmio sobre o atual, surgem janelas para travar preços de venda (Hedge via NDF ou Opções).
- Custo: Se a tendência é de alta, o foco deve ser o travamento antecipado de fertilizantes e defensivos, protegendo a margem antes mesmo da comercialização.
4. IPCA e a pressão no EBITDA
A projeção de IPCA próxima a 4,45% reflete uma pressão indireta sobre itens que drenam o caixa: diesel, frete e manutenção. Como esses desembolsos ocorrem muito antes da receita, o descasamento financeiro fica mais caro sob juros altos. Em 2026, vale mais renegociar contratos de logística e serviços do que apostar apenas em um “preço salvador” na venda final.
5. Resumo: O Cenário em Números (Focus 19/01/26)
| Indicador | Projeção Fim 2026 | Impacto no Agro | Estratégia Recomendada |
| IPCA | ~ 4,45% | Alta em fretes e serviços | Revisar contratos e perdas operacionais. |
| Selic | ~ 12,50% | Crédito e giro mais caros | Priorizar CDI vs Barter; buscar Fiagros. |
| Dólar | R$ 5,50 – 5,70 | Receita vs Custo de insumo | Hedge cambial em janelas de alta. |
| PIB | ~ 1,8% | Demanda interna estável | Foco em eficiência de estoque. |
6. O Veredito: Eficiência Seletiva
2026 tende a ser o ano da Eficiência Seletiva: mais gestão, menos euforia. Não é o momento para expansão desenfreada com capital de terceiros caro. Há oportunidade real para quem organiza o caixa, protege a margem com hedge e utiliza os dados para antecipar movimentos de mercado.
Como você está protegendo sua margem nesta abertura de ano? O mercado está subestimando o câmbio ou superestimando os juros? Comente sua visão abaixo.

Especialista em gestão de riscos e finanças do agronegócio. Atua na proteção de margem, estruturação financeira e valorização do patrimônio rural. Traduz decisões complexas de 2026 em estratégias práticas para quem vive da terra e investe no campo.





