A volatilidade do agro brasileiro em 2026 não vem só do clima e do câmbio. Ela vem, sobretudo, do custo do capital, da pressão por eficiência, do risco jurídico e tributário e um tema muitas vezes ignorado da fragilidade das decisões quando a fazenda depende de uma única pessoa. Em um cenário de margens mais apertadas, governança e sucessão profissional deixam de ser “assunto de herdeiro” e viram estratégia de preservação de caixa e de patrimônio.
Nota: este artigo tem caráter informativo e prático para gestão. Para decisões societárias, tributárias e sucessórias, valide com advogado, contador e especialistas locais (regras variam por estado e caso).
1) O “Pulso” da Semana: Focus 26/01/26
O Dado
Comece a reunião de gestão da semana olhando o termômetro macro. As projeções do Boletim Focus (26/01/2026) costumam orientar expectativas de Selic, IPCA e crescimento variáveis que influenciam diretamente juros de custeio, investimento em máquinas, prazo de giro e negociação de dívidas.
(Exemplo didático: “Selic mantida em 12,50%, IPCA estável”. Substitua pelos números do dia, se você estiver com o Focus aberto.)
A Conexão
Com custo de capital alto, uma fazenda não pode se dar ao luxo de ter conflitos familiares que paralisam decisões críticas: travar um investimento, atrasar compra de insumos, postergar venda, não renegociar dívida no timing correto. Em 2026, governança é, antes de tudo, preservação de margem:
- reduz decisões emocionais;
- acelera aprovações;
- cria rituais de cobrança por indicadores (KPIs);
- protege o caixa contra “vazamentos” (gastos pessoais misturados).
2) Da “Vontade do Dono” ao “Conselho de Família”

A Transição
O modelo do patriarca/matriarca que decide tudo sozinho está se tornando obsoleto e arriscado não por falta de mérito, mas por dependência total. Se a liderança adoece, se ausenta ou perde energia, a fazenda perde velocidade. E velocidade, em juros altos, custa caro.
O Conceito: Conselho de Família
Não precisa ser “coisa de multinacional”. Conselho de Família pode começar simples e funcionar muito bem com:
- reuniões formais (mensais ou bimestrais);
- pauta enviada antes;
- ata (decisões registradas);
- KPIs claros (produção, custo por hectare, endividamento, caixa, comercialização, manutenção).
Valor para o leitor: separar “caixas”
Essa disciplina cria o antídoto do erro nº 1 que quebra propriedade rural: misturar caixa da fazenda com caixa da casa.
Quando a família entende o que é retirada, o que é investimento, o que é custo de produção e o que é distribuição de lucros, a fazenda deixa de “pagar tudo” e passa a remunerar corretamente trabalho e capital.
3) Holding Rural: blindagem e eficiência sem “jeitinho”
A Ferramenta (o que é na prática)
A Holding Rural não é “fuga de impostos”. É uma estrutura para organizar a propriedade, centralizar bens/quotas e viabilizar sucessão em vida com regras claras. Em geral, ela melhora:
- organização societária;
- governança;
- previsibilidade sucessória;
- gestão de arrendamentos e receitas.
Vantagens que importam em 2026
- Evita inventário, que pode consumir tempo e dinheiro (custas, honorários, disputas). Em muitos casos, o custo total e indireto pode ser muito relevante e a demora pode travar decisões por anos.
- Facilita planejamento tributário no recebimento de arrendamentos (conforme regime, estrutura e legislação aplicável).
- Protege o patrimônio contra riscos de terceiros, como divórcios, disputas cíveis e conflitos patrimoniais, quando bem desenhada e acompanhada.
Ponto de confiança: “blindagem” não significa impunidade. Estrutura societária séria é feita com propósito lícito, documentação, contabilidade e coerência com a operação.
4) O Acordo de Sócios: as regras do jogo (antes do conflito)
Se você quer autoridade na governança, o pilar é o Acordo de Sócios (ou acordo de quotistas, no caso de LTDA). Ele antecipa conflitos e define o que acontece quando a vida real apertar.
Itens essenciais que devem constar (adaptados à realidade rural):
1) Critérios de entrada na operação
- “Para trabalhar na fazenda, o herdeiro precisa de X anos de experiência fora ou formação técnica.”
- “Cargos têm descrição, metas e avaliação.”
Isso reduz a sensação de “emprego por sobrenome” e protege a equipe.
2) Política de dividendos (lucro vs reinvestimento)
- Quanto do lucro fica para reinvestir (solo, tecnologia, máquinas, irrigação, armazenagem)?
- Quanto será distribuído aos sócios e em qual periodicidade?
Uma política estável reduz briga em ano bom e evita colapso em ano ruim.
3) Mecanismos de saída (quando alguém quer vender)
- Como a fazenda/empresa será avaliada (múltiplos, fluxo de caixa, laudo)?
- Qual o prazo de pagamento e garantias?
- Direito de preferência para familiares/sócios?
Sem isso, a briga vira “ou me paga agora ou eu travo tudo”.
4) Regras de decisão e alçadas
- O que a gestão pode decidir sozinha?
- O que precisa de aprovação do conselho/família?
- Limites para endividamento e compra de ativos.
5) Sucessor vs. Herdeiro: o papel de cada um
Aqui está uma diferenciação que muda o jogo:
- Herdeiro é um direito (sangue, vínculo legal).
- Sucessor é uma competência (preparo, capacidade de liderar e decidir).
Nem todo filho precisa operar o trator mas todos precisam ser acionistas educados. Se um filho mora na cidade e é médico, a governança define como ele participa como proprietário (lucros, informação, regras) sem atrapalhar a operação de quem ficou na terra.
Isso tira a sucessão do campo emocional (“quem o pai ama mais?”) e leva para o campo profissional (“quem está apto para gerir?”).
6) Tabela: o caminho da profissionalização
| Estágio | Características | Risco | Ação Recomendada |
| Fase 1: Intuitiva | Patriarca centraliza tudo. | Altíssimo (dependência total). | Iniciar reuniões formais de gestão. |
| Fase 2: Familiar | Filhos entram na operação sem regras. | Conflitos de hierarquia e ego. | Criar Acordo de Sócios. |
| Fase 3: Governança | Gestão por indicadores e regras claras. | Baixo (continuidade garantida). | Auditoria externa e Holding. |
7) Pró-labore vs. Distribuição de Lucros (o conflito nº 1)
A raiz da maioria das brigas é simples: confundir remuneração por trabalho com remuneração por propriedade.
- Quem opera a fazenda (gestão, compras, vendas, equipe, qualidade, manutenção) deve receber pró-labore compatível com o salário de mercado do cargo.
- Quem não trabalha na operação recebe distribuição de lucros (dividendos) como sócio.
Por que isso resolve? Porque reduz a sensação de injustiça:
- “Quem trabalha mais, ganha pelo trabalho.”
- “Quem é dono, ganha pela posse.”
Essa separação é uma vacina contra ressentimento silencioso o tipo de ressentimento que explode na primeira crise de safra.
8) Conselho Consultivo com membros externos (isento e prático)
Produtores às vezes rejeitam “conselho” por parecer corporativo. Mas um Conselho Consultivo simples, trimestral, com 1 ou 2 membros externos, pode ser o maior ganho de maturidade.
Exemplos de membro externo:
- um agrônomo de confiança com visão técnica e de risco;
- um consultor financeiro focado em caixa, dívida e investimento;
- um advogado especializado em societário/sucessão.
Vantagens:
- voz isenta como “juiz” em conflitos;
- visão de mercado e comparação com outras operações;
- disciplina para acompanhar KPIs e cobrar decisões.
9) Matriz de Competências dos herdeiros (mapear sem humilhar)
Em vez de “quem é o favorito”, faça um mapa objetivo da nova geração. Quatro perfis comuns:
- Operacional: gosta de campo, equipe, rotina, manutenção, execução.
- Comercial: negociação, barter, venda, relacionamento, timing.
- Financeiro: custos, fluxo de caixa, dívida, orçamento, indicadores.
- Acionista: não quer operar, mas quer entender resultados e governança.
A ação prática: desenhe funções e comitês conforme o perfil. Isso tira a pressão do filho que não quer “ir para a lama”, mas pode ser excelente em finanças, comercialização ou na Holding.
10) O impacto do ITCMD em 2026 (urgência real)
Com discussões recorrentes sobre reforma tributária e movimentos estaduais, o ITCMD pode se tornar mais pesado ao longo dos anos (inclusive com modelos progressivos em alguns debates).
Valor prático: em muitos casos, antecipar a sucessão por doação de quotas com reserva de usufruto (quando adequado) pode ser mais eficiente do que esperar um inventário no futuro — quando alíquotas e bases podem ser maiores e a família pode estar em conflito.
Confiança e cautela: ITCMD é estadual e as regras mudam. Planejamento sério exige simulação com profissional e documentação impecável.
Box de Ouro: A Regra do Chapéu (governança emocional)
Dica de Governança: ensine sua família a identificar qual “chapéu” está usando:
- No almoço de domingo: chapéu de Família (afeto).
- Na reunião de segunda: chapéu de Empresa (hierarquia e métricas).
- No fechamento de safra: chapéu de Propriedade (lucro e dividendos).
Misturar chapéus é o caminho mais rápido para o conflito: você cobra como chefe no almoço e ama como pai na reunião — e ninguém entende o lugar de cada conversa.
Checklist: o “Termômetro” da sua Fazenda
Marque Sim ou Não:
- Você tem um caixa separado para despesas pessoais e da fazenda? ( ) Sim ( ) Não
- Os herdeiros sabem exatamente quanto a fazenda deve e quanto fatura? ( ) Sim ( ) Não
- Existe um plano escrito de quem assume se o patriarca se ausentar amanhã? ( ) Sim ( ) Não
Resultado: se marcou “Não” em qualquer uma, sua governança precisa de atenção imediata.
Conexão final com o Focus (autoridade aplicada)
Com as projeções do Focus desta semana apontando um ambiente de custo de capital sensível e margens sob vigilância, a margem de erro da sua fazenda diminuiu. Conflitos familiares custam caro, drenam o caixa e travam decisões no pior momento. Profissionalizar a sucessão e a gestão não é mais opção: é estratégia de sobrevivência.
O legado é maior que a safra
Em 2026, a terra vale muito mas a harmonia familiar vale mais. Uma fazenda sem governança é um ativo em risco a cada virada de geração.
Sucessão não é sobre morte; é sobre continuidade da vida e do negócio. Começar hoje é garantir que a safra de 2030 ou 2040 ainda pertença à sua família com eficiência, paz e prosperidade.

Especialista em gestão de riscos e finanças do agronegócio. Atua na proteção de margem, estruturação financeira e valorização do patrimônio rural. Traduz decisões complexas de 2026 em estratégias práticas para quem vive da terra e investe no campo.





