Fiagros vs LCI: onde está o real retorno do capital no Agronegócio

Ferreira Santos

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Fiagros vs LCI Onde está o real retorno do capital no agronegócio

Última atualização em outubro 3rd, 2026 às 10:41 pm

Uma LCI e um Fiagro podem aparecer lado a lado em uma carteira, mas o risco econômico por trás de cada investimento é muito diferente.

A LCI representa um crédito contra a instituição financeira emissora e conta com a proteção do FGC, observados os limites e as condições da garantia. Já o Fiagro é um fundo cujo resultado depende dos ativos de sua carteira, que podem envolver crédito, imóveis rurais, participações e outros instrumentos ligados à cadeia do agronegócio.

A diferença mais importante, portanto, não está simplesmente na taxa ou no dividend yield. Está em qual risco o investidor está assumindo para obter aquele retorno.

Os dados regulatórios utilizados nesta análise foram consultados em setembro de 2026.

O que realmente está por trás da LCI?

Ao comprar uma Letra de Crédito Imobiliário, o investidor possui um crédito contra a instituição financeira emissora.

Isso é diferente de financiar diretamente um produtor rural.

A LCI não significa que o dinheiro aplicado esteja juridicamente vinculado a um determinado produtor, fazenda ou operação rural. O risco principal para o investidor é o da instituição emissora, combinado com as regras de cobertura do FGC.

A garantia ordinária do FGC alcança a LCI e outros produtos elegíveis até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição financeira ou conglomerado, respeitado ainda o limite global de R$ 1 milhão em um período de quatro anos.

Isso não transforma a LCI em um investimento sem risco. O FGC é uma proteção dentro de regras específicas, e não uma garantia de rentabilidade.

E qual é o risco de um Fiagro?

O Fiagro possui uma estrutura diferente.

A legislação permite que esses fundos tenham exposição a imóveis rurais, participações em sociedades, ativos financeiros, direitos creditórios e títulos de securitização ligados ao agronegócio, entre outros ativos previstos na legislação.

Por isso, não existe um único risco de Fiagro.

Um fundo concentrado em crédito privado pode ter como principal preocupação a capacidade de pagamento dos devedores. Um fundo com exposição imobiliária pode estar mais sujeito aos preços das terras, arrendamentos, questões jurídicas e liquidez. Uma estratégia de participações pode apresentar riscos empresariais diferentes.

A análise precisa começar pelo ativo que efetivamente gera o retorno.

A CVM atualmente mantém uma base específica de Informes Mensais de FIAGRO, que permite consultar informações encaminhadas pelos administradores dos fundos.

O caso AgroGalaxy mostra por que o crédito precisa ser analisado

O risco de crédito não é uma abstração no agronegócio.

A AgroGalaxy entrou em recuperação judicial em 18 de setembro de 2024. No caso de um CRA ligado à companhia, a própria documentação analisada pela CVM registrou eventos de inadimplemento e posteriormente tratou da recuperação dos créditos. Em maio de 2025, o Tribunal de Justiça de Goiás informou a homologação do plano de recuperação do grupo, com aproximadamente R$ 5 bilhões em dívidas.

Esse caso não significa que todo Fiagro esteja sujeito ao mesmo risco.

Ele demonstra algo mais simples e importante: uma garantia descrita no relatório não equivale automaticamente à recuperação integral do capital.

É preciso entender como aquela garantia funciona quando o devedor deixa de pagar.

A inadimplência rural também mudou o ambiente de crédito

Os dados do Banco Central mostram que a deterioração do crédito rural merece atenção.

Em dados reproduzidos pela CNA com base nas séries do Banco Central, a inadimplência da carteira de crédito rural com taxas de mercado para pessoas físicas passou de 1,08% em outubro de 2023 para 3,62% em outubro de 2024.

Esse tipo de indicador não permite prever o resultado de um Fiagro específico.

Ele serve para lembrar que o risco de crédito agropecuário pode aumentar quando preços, produtividade, clima, custo financeiro e capacidade de comercialização se deterioram simultaneamente.

LTV é importante, mas não é um selo de segurança

O Loan-to-Value (LTV) é útil principalmente quando existe uma operação de crédito garantida por determinado ativo.

A fórmula é simples:

LTV = valor do crédito ÷ valor da garantia

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Imagine um crédito de R$ 60 milhões garantido por ativos avaliados em R$ 100 milhões.

O LTV inicial é de 60%.

Agora suponha que o valor econômico da garantia caia 30%, para R$ 70 milhões. O mesmo crédito passaria a representar aproximadamente 85,7% desse valor.

É por isso que analisar apenas o LTV informado pelo fundo é insuficiente.

Também é necessário verificar:

data da avaliação da garantia;

tipo de ativo utilizado como garantia;

liquidez desse ativo;

prioridade jurídica da garantia;

existência de outras dívidas sobre o mesmo bem;

deságio necessário para uma eventual venda forçada.

Não existe na regulamentação do Fiagro uma regra geral segundo a qual um LTV abaixo de 40% seja automaticamente “seguro” ou acima de 60% seja automaticamente perigoso.

Esses números podem ser utilizados como referências internas de análise, mas não devem ser apresentados ao leitor como limites universais de risco.

Dividend Yield vs. Rentabilidade no Vencimento
ImageFX – Comparação de volatilidade entre LCI e Fiagro ao longo do tempo

Dividend yield não é rentabilidade total

Esse é um dos erros mais comuns na comparação entre Fiagro e LCI.

Imagine um Fiagro distribuindo 0,90% ao mês em determinado período.

O investidor pode receber os rendimentos e, ao mesmo tempo, sofrer queda no preço da cota.

Se uma cota comprada por R$ 100 cair para R$ 94, o investidor terá uma perda patrimonial de R$ 6 por cota, ainda que tenha recebido distribuições durante o período.

Por isso, a análise deve considerar:

rendimentos distribuídos;

variação do preço da cota;

taxas;

impostos aplicáveis;

eventuais perdas de crédito.

A rentabilidade econômica do Fiagro não pode ser reduzida ao dividend yield observado em um único mês.

Como funciona a liquidez?

A liquidez da LCI depende das condições da emissão. Muitas aplicações são estruturadas para permanência até o vencimento, embora determinadas ofertas possam apresentar condições específicas de liquidez.

No Fiagro listado, a situação é diferente.

O investidor pode vender suas cotas no mercado secundário, mas precisa existir contraparte disposta a comprar pelo preço disponível.

A B3 informa prazo de D+2 para a liquidação da operação, mas D+2 não significa que o investidor tenha garantia de venda imediata.

Essa diferença é importante.

Liquidação não é sinônimo de liquidez.

Tributação: a comparação mudou em 2026?

A LCI continua com remuneração isenta de Imposto de Renda para pessoa física, de acordo com as regras atuais. A tentativa de mudar essa tributação em 2025 não permaneceu vigente.

Nos Fiagros, a isenção dos rendimentos distribuídos para pessoa física depende do atendimento das condições previstas na legislação, incluindo cotas admitidas exclusivamente à negociação em bolsa ou mercado de balcão organizado e pelo menos 100 cotistas, além das demais condições legais aplicáveis.

O ganho obtido na venda ou no resgate das cotas possui tratamento tributário próprio, com alíquota de 20% prevista na legislação do Fiagro.

Existe ainda uma mudança relevante para investidores de alta renda.

A partir do ano-calendário de 2026, pessoas físicas com rendimentos anuais superiores a R$ 600 mil ficam sujeitas às regras de tributação mínima previstas na Lei nº 15.270/2025. Entre os rendimentos considerados nessa base estão remunerações de LCI e determinados rendimentos distribuídos por Fiagros que atendam às condições legais.

Portanto, dizer simplesmente que “Fiagro é isento e LCI é isenta” não é suficiente para uma análise tributária de um investidor de alta renda.

Fiagro e LCI não devem ser avaliados pela mesma régua

CritérioLCIFiagro
NaturezaRenda fixa bancáriaFundo ligado às cadeias do agronegócio
Risco principalCrédito da instituição emissoraRisco dos ativos e estratégias da carteira
FGCSim, dentro das regras e limitesNão
RetornoNormalmente definido na contrataçãoDistribuições + variação do valor da cota
LiquidezDepende da emissão e do vencimentoMercado secundário, quando listado
Marcação a mercadoDepende da forma de saídaPresente no preço de mercado das cotas
Distribuição periódicaNão é característica da LCIPode ocorrer conforme resultado e política do fundo
Ganho na vendaConforme regras aplicáveis à LCIGanho de capital sujeito à tributação específica
Principal ponto de análiseEmissor, taxa, prazo e cobertura do FGCCarteira, crédito, garantias, concentração, liquidez e gestão

Como auditar um Fiagro antes de investir

Em vez de procurar simplesmente o maior dividend yield, examine os documentos públicos do fundo.

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1. Descubra de onde vem o retorno

O fundo está recebendo juros de crédito, arrendamento, venda de ativos, participação empresarial ou valorização patrimonial?

Sem responder essa pergunta, o dividend yield tem pouco significado.

2. Analise a concentração

Verifique quanto da carteira depende de um único devedor, emissor, cadeia produtiva ou região.

Um fundo com dezenas de operações pode ter concentração econômica elevada mesmo quando o número de ativos parece grande.

3. Examine as garantias

Não basta saber que existe “garantia real”.

Procure saber:

quem é o proprietário;

qual é a prioridade da garantia;

qual foi a data da avaliação;

qual é a liquidez do ativo;

se existem outros credores;

qual seria o valor provável em uma execução.

4. Analise o LTV quando ele fizer sentido

Para operações garantidas, acompanhe o LTV e faça um teste de estresse.

Pergunte o que acontece se a garantia perder 10%, 20% ou 30% do valor.

5. Procure renegociações e inadimplência

Leia os fatos relevantes e os relatórios gerenciais.

Uma carteira pode continuar distribuindo rendimentos enquanto determinados créditos estão em renegociação. Por isso, fluxo distribuído e qualidade do crédito precisam ser analisados separadamente.

6. Observe a liquidez da cota

Compare volume negociado, spread entre compra e venda e comportamento da cotação em períodos de estresse.

Uma cota teoricamente líquida pode apresentar dificuldade de saída justamente quando o investidor mais precisa vender.

Consultar a regulamentação de FIAGRO na CVM

Consultar os dados abertos de FIAGRO da CVM

O que significa retorno ajustado ao risco?

A comparação correta não é:

LCI paga X% e Fiagro paga Y%.

A pergunta mais útil é:

quanto retorno líquido está sendo obtido depois de considerar risco de crédito, liquidez, volatilidade, custos, impostos e possibilidade de perda de capital?

Uma LCI de determinada instituição pode oferecer retorno menor, mas estar dentro dos limites de cobertura do FGC.

Um Fiagro pode distribuir mais renda, mas apresentar maior exposição a crédito, mercado e liquidez.

Nenhuma dessas características, isoladamente, determina o resultado futuro.

O trabalho de análise está em descobrir qual risco produz aquele retorno e se o investidor compreende esse risco.

Perguntas frequentes

Fiagro é mais arriscado que LCI?

Não existe uma resposta válida para todos os casos. A LCI possui risco de crédito do emissor e pode contar com a cobertura do FGC dentro das regras aplicáveis. O Fiagro não possui FGC e está sujeito aos riscos dos ativos que compõem sua carteira. A comparação precisa ser feita considerando o emissor, a carteira e o horizonte de cada investimento.

Todo Fiagro paga dividendos mensais?

Não. A frequência e o valor das distribuições dependem da estrutura, dos resultados e da política de distribuição do fundo.

D+2 significa que consigo vender um Fiagro em dois dias?

Não. D+2 é o prazo de liquidação da negociação. A venda depende da existência de compradores e do preço negociado no mercado secundário.

LTV abaixo de 40% significa que o crédito é seguro?

Não. O LTV é apenas uma das métricas. É necessário avaliar o tipo de garantia, sua liquidez, prioridade jurídica, atualização da avaliação e concentração da carteira.

LCI e Fiagro podem coexistir em uma carteira?

Sim. São instrumentos com estruturas de risco e características diferentes. A função de cada investimento depende do objetivo, do prazo, da liquidez necessária e do nível de risco que o investidor aceita assumir.

O ponto central da comparação

LCI e Fiagro não são substitutos perfeitos.

A LCI coloca o foco no emissor, prazo, taxa e proteção do FGC. O Fiagro exige uma análise mais ampla da carteira, dos devedores, das garantias, da concentração, da liquidez e da capacidade de geração de resultado.

No agronegócio, a qualidade do retorno depende da qualidade do ativo que está por trás dele.

Quanto maior for o fluxo oferecido, mais importante se torna entender de onde esse fluxo vem, quem paga, qual garantia existe e o que acontece quando a operação sai do cenário esperado.

Essa é a diferença entre olhar apenas o rendimento e analisar o retorno efetivamente ajustado ao risco.

Aviso: este conteúdo possui finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não constitui recomendação, oferta ou indicação de compra ou venda de valores mobiliários. Antes de tomar uma decisão, consulte os documentos do produto, a regulamentação vigente e, quando necessário, um profissional habilitado.

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